domingo, 15 de abril de 2012

Sísifo desce a montanha – Afonso Romano de Sant’anna: uma possível interpretação



Sísifo é um personagem mitológico condenado a subir eternamente uma montanha carregando uma pedra, toda vez que ele chega ao topo com a pedra, a pedra rola e ele novamente começa seu caminho de volta e novamente carrega a pedra. E a cena se repete ad infinitum.


Albert Camus escreveu, em 1942, o ensaio O mito de Sísifo, nele o autor nos apresenta a filosofia do absurdo. Segundo Desidério Murcho: “Albert Camus inicia o seu famoso livro sobre o mito de Sísifo declarando que só há um problema filosófico verdadeiramente importante: o suicídio. A ideia é que é urgente descobrir se a vida faz ou não sentido — pois se não fizer, resta-nos o suicídio.”



Lendo o livro de poemas de Affonso Romano de Sant’anna intitulado Sísifo desce a montanha, tenho a sensação de que o poeta, escritor e ensaísta acredita ter encontrado a saída, ou seja, o sentido da vida. Para mim, numa primeira leitura dos poemas, Sant’anna passa-me a ideia de que nós podemos descer a montanha e parar de rolar o rochedo eternamente. Para isso é preciso começar a dar sentido ao nosso cotidiano, parar de agirmos como máquinas, levar em conta a conversa simples do fim do dia ("Toda noite acendo algumas velas na sala enquanto minha mulher prepara o jantar"), não se deixar ser devorado pelo enigma e, ao mesmo tempo, levantar o olhar, quando nos depararmos pertencentes a um rebanho.  


Para vencermos a rocha e a deixarmos rolar, é preciso vermos sentido nas coisas que estão além da rocha, para parodiar Drummond, do qual Sant’anna é estudioso, é necessário não darmos um valor maior do que a pedra no meio do caminho merece, ou seja, não podermos viver em função da pedra no meio do caminho, pois pedras no meio do caminho sempre terão, mas nosso caminho vai além.
         Pode ser, a minha, uma visão otimista e pouco filosófica, pouco absurda, muito rasa ou óbvia, quase Pollyanna;  mas como já escreveu Camus; “Se o mundo fosse claro, a arte não existiria." E se a arte fosse clara, não precisaríamos de degustá-la, pensar sobre ela e interpretá-la. Portanto, essa minha interpretação é somente uma interpretação possível, para dar sentido à vida e poder parar de rolar a pedra eternamente.
 
Carla Machado

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